Acasalamento
Não use palavras românticas
Use as mais baixas, as mais chulas
Só assim fico nua.
Não seja gentil ou carinhoso
Seja rude e vulgar
É assim que sei gozar.
Não me antecipe o que vai fazer
Usa toda sua loucura
É assim que entendo o prazer.
Não me peça para fazer nada
Deixa-me seguir adiante
Só assim sou amante.
Não me peça permissão
Toma-me quando quiser
Só assim sou mulher.
Jamais faça amor comigo
Faça sexo
Se lhe pareço ímpar
Não podemos ser dois
Sexo é o que quero na cama
Amor é o que desejo depois.
Se lhe pareço carnal
Ou por demais atrevida
Espere e nada me diga.
Não tarda você verá
Sexo é o que nos fará
Par por toda vida
Carmen Bentes
Amazona
O cavalo baio me olha de soslaio
O alazão prova do açúcar o torrão
Um Quarto de milha segue pela trilha
Um tordilho mastiga o milho
O cavalo Crioulo bebe no nascedouro
Um Bretão surge de sopetão
O Puro Sangue Inglês nunca cede a vez
Um Mangalarga trota pela estrada
O Campolina refuga e empina
E o Andaluz sabe que me seduz.
Todos têm olhos meigos e atentos
Todos me chamam a todo o momento.
Pudera, nasci para ser um deles
Essa aparência humana
Veio de uma estrela distraída
Que me encaixou nesse corpo
E só pude ser amazona.
Tenho cabelos e desejava crinas
Braços e pernas no lugar de sólidas patas
Em vez de reluzente pelo, pele opaca
Unhas quando deveriam ser cascos
Humana assim, sou um fiasco.
E aquela estrela distraída
Que partiu como cigana
Não me deixou saída
Só posso ser amazona.
Carmen Bentes
Anagrama
Eu não sou quem afirmo ser
Nos versos que componho
Eu sou mascarada
Sou a parte malfada
De todos vocês.
Eu destilo veneno
Sentencio e condeno
Depois adoço com mel
Ninguém me adivinha
Sou azevinha e cruel.
Sou o malefício
De todos os sortilégios
Sou o desperdício
Como fogos de artifício
De quem decifra o mistério.
Sou densa, escassa, até bruma
Se for nisso que tu crês.
Sou de tênue filigrana
Sou teu pior pecado
Teu mais óbvio anagrama.
Carmen Bentes
Apelo
A dor se instala,
Meu coração se agita
Dor é sempre mais dor,
Do que a dor já sofrida.
Tenho desejos de chorar.
Tive descrença do que era belo
Tenho descrença do eterno
Não creio que possas te salvar.
Adivinhei a tua morte
Como já previa tua sina
Como devorava minha rotina
Como antecipava tua sorte.
Não posso mais admirar os motivos
Pelos quais tanto padeceste
Mas, perdoem-me os céus
Por que morreste?
Ah não morras, eu te suplico
Embora meus apelos sejam ateus
Jamais amenizei teu cansaço
Como amenizastes os meus.
Não morras, longe em degredo
Poupa-me desse embaraço
Mas se insistires em fazê-lo
Que - ao menos - seja em meus braços.
Carmen Bentes
Areia de Flor
Brinco procurando rosas
Quero colhê-las à beira do mar
Quero vivê-las na areia macia
Quero espuma para me enfeitar.
Tuas palavras que brincam comigo
Saem salgadas com gosto de fantasia
Minhas rosas são feitas de areia
Onde escorregam na tua poesia
Dá-me tua flor rubra e te darei minhas rosas de areia!
Dá-me teu encanto e te darei minha dualidade de sereia!
Mas sempre serão, rosas de areia
Carmen Bentes
Banho quente
Um corpo nu, sonhos mutilados
Cabelos presos, à nuca atados
De longe vem o cheiro dos jasmins
O vapor a ilude envolvendo-a no opaco
A água corre e escorreguem lembranças
Brilhantes líquidos em fio inteiro
Objetos suam ao seu redor
Ela sua, nua, vendo-se só
Que dor de solidão é esta?
De onde surge para angustiá-la?
Entrega-se ao banho convencida
De que o calor que a deixa entorpecida
É bálsamo para curá-la
Desliga o chuveiro.
Um cheiro de jasmins rescende no banheiro
A lembrá-la de sua infância
Quem a levou sem clemência?
Pelo ralo se esvai a última gota de inocência
Enxuta e enlutada
Fica presa à parede suada
Ainda rescendem os jasmins?
Qual nada!
A infância está perdida
O banho terminado
Ela ainda sozinha
A vida ainda um fardo.
Carmen Bentes
Beijo roubado
Quero pousar na tua boca
Ser paz no teu sorriso
Invadir teus sonhos
Transformar-me em outra coisa
Algo de belo e colorido
Profanar o teu juízo
Assim como um ateu.
Para pecar sem culpa
Na fresca umidade
Na caverna irrigada
Na tua distração alienada
Só por um beijo teu.
Carmen Bentes
Brincadeiras de Roda
- Ciranda, Cirandinha
Brinca menina, tonta de riso
Roda o vestido, torna a rodar
Pétala ao vento, liberdade tão mansa
(Vamos todos cirandar)
- Eu entrei na roda dança
Menina ri de teus folguedos,
Rodopia, gira pião, pés descalços
Iara no rio, água a respingar
(Eu entrei na roda dança e não sei dançar)
- Escravos de Jô, jogavam caxangá
Teus desejos de quebra-cabeça
São mosaicos do teu encanto
Que não se consegue encaixar
(Guerreiros com guerreiros fazem zigue, zigue, zá)
Menina que brinca na roda
Menina que brinca na vida
É decalque de uma manhã colorida.
Na tua inocência nem percebes;
Que entre teus folguedos moleques
Está minha própria vida.
Carmen Bentes
Como quem surge
Como quem surge de muito além
E para muito além de mim mesmo
Surgiu para me guiar
Foi farol solitário de doce navegar
Como quem surge de todos os améns
E fez uma prece para me acompanhar
Deixou-me aqui e aquém
Do que espero e sei, posso esperar
Como quem surge pela vida
E pela vida há de expirar
Chorou sentido e sem ninguém
Por tudo que acabou de deixar
Como quem surge dos umbrais
E tem a morte por espantar
Há de me levar consigo
Para onde quiser se encontrar
Carmen Bentes
Definição
Sou a musa encantada, sou a fada peregrina
Sou poetisa que tudo sabe
Sou profeta que nada fala
Sou vésper e vespertina
Sou a alma do escritor, sou a rima do trovador
Sou o clarim das cornetas
Sou ao escárnio das falsetas
Sou o silêncio da dor
Sou o sonho dos inocentes, sou a alma feminina
Sou a força dos guerreiros
Sou pesadelo traiçoeiro
Sou a virgem libertina
Saibas tão somente que sou:
A pompa dos nobres, o aveludado trono
A miséria dos pobres, um cão sem dono
Mas sou quem fica ao teu lado
E quem vela o teu sono.
Carmen Bentes
Desoras do tempo
De repente quero resolver a vida
Assim, subitamente, como se a morte me espreitasse
E não houvesse mais tempo, nem pêndulos
Como se as horas encurtassem.
Quero um relâmpago de idéias lúcidas
E decisões práticas.
Quero me mover sem o peso
De discutir, planejar, decidir, postergar...
Quero um anjo com ponteiros de segundos
Mostrador transparente e agulha dos minutos
Sem o incômodo alerta do despertar que me inquieta
E que traga em suas mãos a lança da hora certa.
Quero dele a graça de me fazer distante
E liberta, nem olhar para trás
Saber tão simplesmente
Que tudo passou sem que eu estivesse presente
Que tudo se resolveu a contento
E que não precisei estar lá.
Carmen Bentes
Deus proverá
Mais curto na frente
O vestido barato
Ventre distendido
Umbigo saliente
Bacia na cabeça
Chinelo raspando o chão
Unhas encardidas
Cheiro de sabão.
Filhos em penca
Quase fazem despencar
A mãe parideira
Com a trouxa a equilibrar
Descem em algazarra
Pela lama da ladeira
O destino é o riacho
E a roupa para lavar
Esse é seu destino:
Parir filhos que não dá conta
Para a vida se encarregar
De sobrevivê-los ou levá-los
Mas sempre ao Deus dará.
Ir à missa contrita
Ouvir o padre ensinar
Que filhos são bençãos,
Não se pode evitar.
Na sua lida diária
Ela só faz ensaboar
A vida que escorrega
Com mais um filho para chegar.
A noite quando surge
Traz um macho a lhe atormentar
Um homem que lhe faz filhos
Só para se aliviar.
E assim se alcunham família
E assim Deus proverá.
Carmen Bentes
Entre iguais
Vi tuas coxas entre as rendas
E a umidade do teu sexo
Teus seios nas dobras das fendas
Do decote entreaberto
Adivinhei-te feminina
E cobicei o teu regaço
Antevi-me enlaçada
No rigor do teu abraço
Debalde, debati-me
Para fugir do teu apelo
Quero antes afagar-te
E anelar o teu cabelo
Quero lamber o salgado
Do teu suor temperado
Coração em descompasso
No teu pulso apressado
Consagro-te nos meus pecados
De desejar-te tanto assim
Anelados são teus pelos
Teus lábios, puro carmim
No teu gosto de cio
Edifiquei o meu desejo
Senti... sem mais nada
Não vês o que eu vejo
Se desejos são pecados
Se impulsos são malditos
Deixo-os aqui esfacelados
E fica o dito por não dito
(muito menos versejado)
Carmen Bentes
Esconderijo
Teu afeto toma todos os meus cantos
Teu encanto toma todos os meus afetos
Guio-te por esconderijos secretos
Convenço-te a seguir comigo
Venço-te nas trilhas que inventei
Ofereço-te matas fechadas
Deixo-te onde me achei.
Teu poema transforma os meus versos
Teu reverso transforma os meus poemas
Guio-te por entre sombras amenas
Convenço-te a andar no escuro
Venço-te nos corrimões por onde alcei
Ofereço-te casarios antigos
Deixo-te aonde escapei.
Teu texto prende a minha caligrafia
Teu pretexto prende minha lucidez
Guio-te pela calçada escorregadia
Convenço-te a entrar no labirinto
Venço-te nos becos e vielas
Ofereço-te a luz da saída
Deixo-te aonde nunca cheguei.
Carmen Bentes
Fel
O pior sempre são as ausências
Como resistir ao pranto,
Como vestir as aparências
De modo a não me delatar.
Vêm maus presságios, más lembranças
Estou sem sonhos para sonhar
Vem a espera, morre a esperança
Que foi a primeira a tombar.
Olho meu rosto e nem me reconheço
Tão duro, empedernido...
Será mesmo meu esse olhar ferido?
E essa busca sem sentido?
Quero estar viva agora
Embora seja uma tentativa vã.
Nunca estarei completamente livre
Jamais serei completamente sã.
Carmen Bentes
Frágil Fortaleza
Cal, pedras, pórticos e pó
Desesperança, incertezas
Maus ventos, temporais
A tudo resistes
Minha frágil fortaleza.
Escadas, patamar, arcos e archotes
Escondi-me na frágil fortaleza
Cansada de confiar nas guerras
Na bravura dos guerreiros
E na virtude da pureza.
Fosso, ferros, gárgulas e grilhões
Em tuas celas me liberto
Divirto-me com teus fantasmas
Escondo-me nas masmorras
Para iludir minha tristeza.
Pátio, estrebarias, caldeirões e canhões
Quem revela seus segredos?
Quem não chora no escuro?
Quem não grita de desespero?
Quem escapa do medo?
Carmen Bentes
Horas Mortas
Assim como o pinho
Que chora através de mãos habilidosas
Eu preciso de lágrimas para chorar através delas
- Lágrimas vertiginosas.
Assim como os cânticos
Que se elevam em vozes melodiosas
Eu preciso de melodias para verter minhas lamúrias
- Lamúrias copiosas.
Assim como os mortos
Que precisam do réquiem das carpideiras
Eu preciso que sagrem minhas trincheiras
- Trincheiras traiçoeiras.
Assim como as pátrias
Que precisam de hinos para torná-las honradas
Eu preciso de hinos para lembrá-las
- Pátrias abandonadas.
Assim como as crianças
Que precisam de noites com regaços e ternuras
Eu preciso de ternuras nas horas mortas
- Noites escuras.
Carmen Bentes
Identidade
A despeito de quem julgam que sou
É ao som das cuícas, repiques, agogôs,
Pandeiros, surdos e tamborins
Que encontro minha alma.
A despeito de quem sou, sou assim.
Minhas raízes habitam solos distantes
Encravadas nos atabaques
E nos terreiros de Candomblé
Mas encarno a epopeia sem fé
De estar sempre longe de mim
Ano após ano se repete
Esse chamado ancestral
E todo ano minha agonia me diz
Que não pertenço aonde devo ficar
Eu sou do lado de lá
E todo ano é sempre a certeza
De me saber fora do meu lugar.
Clama incessante minha identidade.
Disfarçada sob a pele marfim
Sou de ébano nas ocultas entranhas
Assim é que sou de verdade
A outra é uma estranha para mim
Triste viver desse jeito
Por não caber qualquer explicação
Queres minha essência verdadeira?
Ela é negra, bela e altaneira
Misteriosa como a escuridão
De resto é só ilusão pura
Vivo o ano todo
À espera auspiciosa
De libertar-me desse casulo
Que me cobre de indesejada alvura
Carmen Bentes
Ilusão de papel
A pipa que tremula no céu
Parece um peixe alado
Ela corcoveia vaidosa
A colorida rabiola
Hesita e vai embora
É belo o vôo de arabescos
E as cores fulgurantes
Da pipa inocente
Que segue esvoaçante
Descalços e entretidos
Lá estão os meninos
Ensinando a pipa a dançar
Ela, tola e vaidosa
Exibe-se para quem passar
Geométrica brincadeira
Para a pipa acreditar
Que estando perto do céu
Está livre para voar
Mas a linha encerada
Presa à mão de quem a empina
É tênue fio de cadeia
Por um instante esticada
Só por isso está lá em cima
Ainda assim é bela
Na sua liberdade provisória
No azul celeste que ora domina
E no papel de seda fina
Mesmo quando tem amarras
A liberdade sempre fascina
Resignada volta a pipa
Quando a brincadeira termina.
Carmen Bentes
Messalina
Desejo que me possuas de todas as formas
Por todos os meios,
Que infrinjas normas
Que não use freios.
Invade o meu corpo
Quero-te dentro de mim
Até ver-te urrando
Grudando nas minhas coxas o teu gozo.
Faça dardejante tua língua
Quero-a fustigando minha intimidade
Deixa-me cavalgar-te
Quero-te ofegante e sem repouso.
Machuca-me no teu ir e vir enfurecido
Realiza tuas fantasias de bandido
Venda-me os olhos
Amarra-me à cabeceira
Conta-me indecências
Diz que sou tua rameira.
Crava-te nos meus quadris
Puxa-me pelo cabelo
Quero senti-lo rompendo-me
Mas sem poder vê-lo.
Deixa minha boca mordiscar tua virilha
Depois engoli-lo por inteiro
E mesmo sufocada
Retenho-te na minha armadilha.
Deságua tua água salgada
Deixa-me bebê-la afogada
Repete todos os trajetos
Até cansar-te do mapa
Morde minha boca, me dá um tapa.
Deixa-me tonta e dolorida
Marcada e exaurida
Aturdida por tantos orgasmos
Depois me sorria dengoso
Aconhega-me no teu peito suado
Beija meu pescoço, me faz um afago
E dorme sossegado.
Carmen Bentes
Moinhos de vento
Um amor natimorto e perdido
Um doar sem resultado
Um fenecer que certamente
Há de me tomar completamente
E reafirmar meus fracassos
Preparem os falsos sorrisos
A falsa piedade
E deixem-me torcendo sozinha
Para ganhar uma luta
Que eu não queria e sequer é minha
Enfim sigo meus embates com a vida
E sei lá rezando quantas preces
Vou lambendo minhas feridas
Embalando-te enquanto cresces
Ladainhas, à guisa de cantiga
Enquanto finges ser criança eterna
E brinca com minha fera materna
Por temor e por tormento
Empunho a lança, açodada
Qual nada! são moinhos de vento
Não valem tanta luta
Não compensam tanto desalento.
Carmen Bentes
Mormaço da Vida
Mormaço, março, fevereiro, abril...
O tempo escoa lentamente,
O curioso, o quê impressiona e nos afeta
É que vagarosamente, ele escoa tão depressa!
Mormaço, março, fevereiro, abril
Mesmo a mais insólita rotina
Os dias eternos onde nada se descortina,
Não se pode alterar e seguem esta mesma rima.
Mormaço, março fevereiro, abril
Tempo para ganhar, tempo para perder.
Por mais intensamente que tenhamos vivido
Sempre será pouco: o tempo não nos deixará viver.
Mormaço, março, fevereiro, abril
No relógio, na escuta, na lida
Na indolência, em surdina e sem voz ativa
A gente desliza no mormaço da vida.
Carmen Bentes
Morte plena
E assim, um dia,
Com motivo e sem esperança
Morri...
E nem mesmo um sorriso
Consertaria em meu coração
Aquilo que foi destruído.
E assim, um dia
Com esperança e sem motivo
Morri...
Não posso dizer que deixei alguém
Por que nem mesmo tenho a mim
Parti como vivi: sozinha.
Morri de morte imposta
Morri porque me destruíram
E de todos os meus fúnebres cantos
Foram os teus os mais chorados
Os mais santos...
E a morte que me tem agora
É plácida e sonâmbula e venturosa.
Carmen Bentes
Mulher de muitos
Tenho homens que me encantam
Homens que me assustam
Homens que me deixam lúcida
Homens que chegam e partem
Tenho homens de todas as partes.
Um é menino
Com gosto pelo sol e maresia
Outro é cavaleiro
A me contar sobre poesia
Um é amigo
Com segredos e confidências
Outro é amante
A me tomar com indecências
Um é guerreiro
Com gosto por embates e caças
Um é ausente
A me deixar sem saber de nada
Meus homens que chegam sem aviso
E partem para lugar algum
Tem em mim refúgio preciso
Tem em si o reflexo de Narciso
Deles me ocupo, um a um
Tenho tantos homens
E às vezes nenhum
Porque em faces prismadas
Homens tantos e suas vidas facetadas
São apenas um.
Carmen Bentes
O Menestrel dos meus segredos
Ouvi a cítara do Menestrel
E confiei-lhe meus segredos
O Menestrel entre canções,
O Menestrel entre folguedos,
Fez-se íntimo da minha alma
Sorrateiro e certeiro.
A cada soneto entoado
A cada verso declamado
Levava o meu coração.
E as notas sustenidas
Mostravam que minha vida
Não tinha sequer um refrão.
Como não amar o Menestrel
Entre claves e colchetes
Entre si bemol e falsetes
Quando a dor se fazia dó menor?
Menestrel insinuante
Você já me sabe de cor.
Menestrel deixaste em meu peito
A canção mais melodiosa,
A rosa mais rubra,
O desejo mais temido,
A fuga, sem ter partido
E a promessa de um beijo.
Carmen Bentes
Origami
Dos meus dedos que dobram o papel
Saem as formas que desejo
Onças, patos, girafas, barcos
Peixes, pássaros e macacos
Tudo posso, tudo faço
Meus dedos dobram o papel
E penso em coisa qualquer
São velozes os meus dedos
Dobram, vincam e desdobram
Dão forma ao que eu quiser
Eu bem que queria
Dobrar a vida assim
Esculpi-la ao meu jeito
Simétrica, milimétrica
E fazê-la feita para mim
De uma folha alva e sem par
Faço dobraduras e nervuras:
Vida nova na minha mão
Começo tudo do nada
Dou o formato que sonhar
Não será notória ou simplória
Será uma vida, somente
Uma história que nem mesmo sei
Sairá semente esculpida
Entre as mil folhas que dobrei
Carmen Bentes
Outono da existência
Eu aguardo por meu momento outonal
Aonde a vida não me assaltará de temores
Em que não precisarei viver às voltas com a lida
Em que as horas serão esquecidas
E nem mais lembrarei quais foram as minhas dores
Eu aguardo meu momento outonal
Para sentir o cheiro da manhã entrando pela janela
Deleitar-me com o vaivém das cortinas
Leves, transparentes e balouçantes
Como – enfim – será minha vida
Eu aguardo meu momento outonal
Para sair ao sol da tardinha
E deixar que feixes dourados enfeitem minha pele
Caminhar sem precisar de destino certo
Observar a vida sem nada que me apresse
Eu aguardo meu momento outonal
Para ler sossegada à suave meia luz
Ouvir notícias que não mais me preocuparão
E deixar o sono me convidar ao leito
Onde lençóis macios me trarão um sono inteiro
Eu aguardo meu momento outonal
Onde o espelho me mostrará a pele vincada
Mapeada por histórias que não precisarei contar mais
Embevecer-me com ternuras tolas
E finalmente fazer as pazes com a paz.
Carmen Bentes
Pagã
O encanto com que eu canto o meu canto
Não permite que ele se desvaneça na rua
Estou nua.
A força que força e me reforça a forca
Não permite que ela se rompa à corda crua
Estou nua.
O uivo altivo de feras que arrepia a nuca ruiva
Não deixa que se aproveite o gosto da carne crua
Estou nua.
A mortalha que atrapalha a navalha
Não permite que se ponha a múmia à lua
Estou nua.
E assim, entre fortalezas lúcidas e horrores loucos
Sou degredada no frio calabouço
Sou iluminada nos andores,
Santa de peregrinos e pastores.
E assim, entre presépios e obséquios
Sou cultuada e devedora
Rameira – fogueira – feiticeira,
Não há como escapar da lua escura.
Sigo como estou, e para sempre hei de ficar
Nua, completamente nua.
Carmen Bentes
Pégaso
Espere! Só preciso de um instante
Um átimo, um hiato
Um pégaso, meu ginete alado
Para ir ao teu encontro
(Nua, vou mostrar-me por baixo do manto)
Esmagada no teu abraço
Deixo a mente escapulir
Monto meu corcel encantado
Minhas coxas não te deixam fugir
(Cetro em riste, não tens como iludir)
Amazona fugidia e matreira
Solto rédeas e bridão
Indecente e sorrateira
Do teu corpo lanço mão
(Entre gemidos, te desvendo a rameira)
Estou por um instante qualquer
E teu galope é a alforria
Da minha porção vaga e vadia
Que te tem a hora que quer
(Mesmo sozinha me faço tua mulher)
As urgências do meu corpo
Meu pégaso há de suprir e aplacar
Porque meu destino é ir
E o teu jamais esperar
(Espero pela alcova onde me farás voar)
Carmen Bentes
Peixe de Prata
Peixe de prata à luz de hora e meia
Brinca no mar que ora vagueia
Quer ser tritão, quem sabe sereia?
Dúbio de prata,
À luz de hora e meia.
Peixe de prata à luz de hora e meia
Preso na rede onde nada permeia
Quer ser livre ou seguro na teia?
Reflexo na prata,
À luz de hora e meia.
Peixe de prata à luz de hora e meia
Desliza na espuma que a vaga ondeia
Quer ser perene ou alimento que esteia?
Brilho de prata,
À luz de hora e meia.
Peixe de prata à luz de hora e meia
Leva meus sonhos e o que mais me incendeia.
Quero ser mansa na paz da areia
Farejar ao vento que me despenteia,
À luz de hora e meia.
Peixe de prata à luz de hora e meia
Exorcizo meus medos no fogo da candeia.
Aqueço-me ao lume, fico nua na areia
Sou renda de espuma enfeitando a maré cheia,
À luz de hora e meia.
Carmen Bentes
Poema do poeta
Poetas não são donos da rima
Poetas têm apenas insistente cisma
De que podem versejar.
E na suas métricas de devaneios
A vida toma outro rumo
A razão tem outro prumo
Nada fica como está.
Poetas não são senhores das musas
Poetas tem apenas a ilusão obtusa
De que podem criar.
E nas suas estrofes de delírios
Os sonhos saem noite adentro
O amor vira desalento
Nada fica como está.
Afinal o que são os poetas?
Proféticos ou profetas?
Alquimistas ou feiticeiros?
Definição assertiva não há.
São ilusionistas
Que traçam na própria vida
Um destino que nunca esteve lá.
Carmen Bentes
Penélope
Giro a roda, e a roca
Tece fios invisíveis
Para minha natureza morta
São fortes e risíveis
Teimo em tornar a vida
Algo mais fácil de levar
Um dia, quando menos se espera,
Ela nos leva para o lado de lá
Tenho que ser Penélope cômica
E tecer sedas, organzas e chitas
Porque essa existência irônica
Prega-nos peças e ata-nos em fitas
Para distrair o destino ardiloso
Tão logo acabo um bordado
Desfio os fios entrelaçados
E começo tudo de novo
O fuso gordo de linhas
Sabe por onde a morte caminha
Como não tenho essa certeza
Teço pela vida fios de leveza
Carmen Bentes
Perigo
O que não precisas e eu te recuso
É o que sempre posso te dar.
O que lanço como impulso
É o que sempre posso controlar.
O que me emociona e eu choro
É o que jamais me comoveu.
O que eu te entrego como certeza
É o que jamais me pertenceu.
O que me abranda e me faz serena
É o que sempre quero mudar.
O que te oferto como prenda
É tudo que jamais valeu à pena.
O que me faz água e represo
É tudo que quero escoar.
O que é epitáfio e me faz suicida
É o que mais pode me salvar.
O que é a tua corda de resgate
É onde posso te enforcar.
Carmen Bentes
Permissão
Permita que eu seja assim: coisa suave
Leve, transparente, sílfide, fogo-fátuo.
Permita que na boca o beijo não se trave
Que o instinto seja sentimento nato
Ardiloso e traiçoeiro como uma pantera
Que ataca e devora quando menos se espera.
Permita que eu lhe queira assim: vida afora
Sem testamentos, tormentos ou tratados
Com a leveza de um balão de gás
Frágil, fugas, tanto que pode romper-se
Mas se bons ventos o levarem
Voará livre, belo e em paz.
Permita que eu me lance nesse delírio
E, se um dia, for o dia do adeus,
De acenos e lenços de partida
Permita que eu suporte o longo suplício
Permita-me encontrar, sozinha, a saída
Permita-me viver minha própria vida
A extensão dessa insanidade prometo-te:
Não meço
Apenas permita-me.
Vê que nem tanto assim te peço
Carmen Bentes
Quem de vocês
Quem me deixou aqui
Por certo não sabia como prosseguir.
Quem me deixou aprisionada
Por certo não sabia de nada.
Quem me deixou aflita
Por certo nada sabia da vida.
Quem me deixou lembranças
Por certo nada sabia de esperança.
Quem me deixou sair
Por certo jamais voltou a sorrir.
Quem me deixou retornar
Por certo jamais voltou a sonhar.
Quem me deixou decidir
Por certo jamais voltou a si.
Quem me deixou sem norte
Por certo conhecia minha sorte.
Quem me deixou sem clemência
Por certo desconhecia minha inocência.
Quem me deixou voar
Por certo conhecia o que era amar.
Carmen Bentes
Réquiem
Requiem aeternam dona eis
É de despedida que te falo
Até quando me calei
É de dor que me corrompo
Por ti, a mim amaldiçoei.
Houve um tempo em que sonhava
Sonhos de entendimento e paz
Jamais estes te contava
E tua vida escapou-me fugaz.
É da tua ausência que te falo
Até quando nada digo
É no vazio que resvalo
Sabendo que estás em mim, mas não comigo!
Deixo-te partir com incredulidade
Porquanto te apostava contra tudo
Disfarço-me na pétrea serenidade
Consumo-me na borra do meu luto.
É do teu sono perene que te falo
Embora quisesse livrar-te desse teu dossel
É de ternura que te embalo
Mesmo ungida pelo fel.
Adeus meu menino que é teu tempo
E tempos cumpridos, deves partir
Deixas comigo tão somente a lembrança
De quando ainda podíamos amar e rir.
(assim que te reencontrar, por favor, peças para jamais te deixar)
Carmen Bentes
Rita plumas e chita
Quem chamou a Rita
Com sua saia de chita
De berrantes margaridas
Ombros desnudos na pele jambo
Seios bicudos
Salientes e mundanos
E lá vem a Rita
Rodopiando a chita
Mostrando as pernas
Grossas e esculpidas
A Rita roda pela vida
No odor da água de cheiro
A Rita mostra seu desvestido
A Rita mostra o corpo proibido
E o sorriso matreiro
Lá está a Rita
Em dourado, veludos e canutilhos
Na cintura contida pelo espartilho
A Rita não tem mais a chita.
Desliza como cisne
Exibindo-se faceira
Destarte a Rita mulata
Transforma-se em princesa
E orgulhosa de sua destreza
Agora é porta bandeira
E no final da passarela
Plumas em desalinho
Viveu seu sonho de brilho
Esqueceu o vestido de chita.
Rita mulata, Rita ovacionada
Rita volta para a vida
E para o vestido de chita.
Carmen Bentes
Salto Mortal
Não te iludas comigo
Eu salto sob abismos
Rasgo a minha alma
Exponho a minha dor
Mostro minhas mazelas
Corro todos os perigos.
Não fujo ao meu destino
Cometo todos os desatinos
Deixo que leiam a minha sorte
Que anunciem minha morte
Meus segredos e tormentos
Sou assim:
Não tenho medo de mim.
Jogo-me do trapézio sem rede
Mergulho sem conhecer a profundidade
Revelo a mentira e oculto a verdade
E se a água é insalubre
Ainda assim mato minha sede.
Não me detenho por nada
Mesmo quando não sei o final
Subo a escarpa mais alta
Chego à beira do abismo
Lanço-me em um salto mortal.
Carmen Bentes
Salto Mortal II
Minha alma de poetisa
Não conhece limites
Para os versos que componho
Vou contando minha sina
Ora inventando rimas
Ora me revelando
Por traz das minhas cortinas.
Por vezes o que lês
É a verdade sem máscara
E naquilo que tu crês
É somente o imaginário.
Estarás sempre dando voltas
Como peixes no aquário.
Falo através de mim
E da minha fantasia
Jamais saberás o que é real
Em mim e na minha poesia
Posto que minha história
Onde o início já é o final
É minha alma espraiada.
Posto que minha vida
Ora translúcida, ora maquiada
É sempre um salto mortal.
Carmen Bentes
Salto Mortal III
Sempre que vejo a vida
Estou a um passo de não vê-la mais
Sempre que acho a saída
Estou caminhando para trás
Por isso sou assim:
Lança e flecha sem alvo
Mira sem tiro certeiro
Submersa a um palmo
Chuva sem aguaceiro
Sempre que vejo o mundo
Estou escondida lá fora
A maçaneta não gira
E a morte me devora
Por isso sou assim:
Vazia e intrigante
Maré cheia e vazante
Adaga cega e cortante
Estopa e cetim
Meu vôo é sempre o mais alto
Minha vida sempre marginal
Sempre a estrela no palco
Sempre um salto mortal
Carmen Bentes
Saudades de mim
Se retomar a vida fosse fácil
Eu teria desistido de partir
Teria retornado pela mesma estrada
Que me levou de onde jamais pude sair.
Já teria refeito planos
Reconstruído meus navios
Colado cacos e estilhaços
Tudo estaria resolvido.
Se retomar a vida fosse fácil
Eu já teria feito meu próprio mosaico
Apenas com dias de paz,
Teria dado meia volta e voltado para trás.
Já teria arrumado a casa
Colocado flores na janela
Escancarado as cortinas
E polido as arandelas.
Se retomar a vida fosse fácil
Eu já teria expurgado minhas culpas
Beijado meus inimigos
Posto fim às minhas lutas.
Já teria completado o álbum de fotos
Trocado o calendário na cozinha
Arrumado o leito com esmero
E dito adeus às ladainhas.
Se retomar a vida fosse fácil
Não estaria tão desolada
Sem saída para a manhã seguinte
Ofegante e sufocada.
Trancada, insone, ensimesmada
Alma indômita em motim.
Se retomar a vida fosse fácil
Não teria tantas saudades de mim.
Carmen Bentes
Simplesmente assim
Quero teu corpo de geografias exatas,
Não para estudar, mas para invadir
Quero tua boca de salivas geladas
Não para me refrescar, mas para te exaurir
Quero tuas mãos de carícias pesadas
Não para adivinhar, mas para urgir
Quero tuas palavras de insolências sussurradas
Não para me arrepiar, mas para submergir
Quero-te oculto e embaçado
Quero-te revelado só para mim
Quero-te por tudo e por quase nada
Quero-te tão somente
E tão simplesmente assim.
(Não me ofereças tua alma que é pura, oferta-me teu corpo que peca)
Carmen Bentes
Sol de meia-lua
Gosto do sol quando ele é manso
E me faz carícias suaves
Gosto da fresca luminosidade
Que desliza pela cidade
Gosto dos raios peneirados pelas árvores,
Ver a vida vestida de azul e amarelo
É como admirar uma pintura impressionista
Pontilhada ao longe, definida de perto
Gosto do sol quando ele é manso
E me beija docemente
Gosto dos dias ensolarados
Por onde caminho mansamente
Gosto de ver o mar brilhando
Aqui, ali, lá e cá
Gosto de ver as ondas disputando
Quantos raios podem tragar
Gosto do sol quando ele é manso
E me adormece suavemente
Gosto dessa preguiça à luz do dia
Dessa indolência e calmaria
Gosto do sol quando se põe
Sol de meia lua,
Brincando de esconde-esconde
Ver o céu cor de magenta,
Céu que caprichosamente tinge.
Gosto de vê-lo entrando no horizonte
Para sonhar com a manhã seguinte
Carmen Bentes
Soneto do Desencanto
De tudo o que me deste
De tudo que sempre neguei
Foi por ti que jamais vieste
Foi por mim que te deixei
Das ilusões que me cedeste
Dos delírios que não cometi
Foi por mim que me esqueceste
Foi por ti que nunca cedi
Dos encantos que derramaste
Das juras que calei
Foi por ti que não lutastes
Foi por mim que definhei
Da vida que me entregaste
Da mão que te recusei
Do sonho que me negaste
Foi por mim que te amei
Carmen Bentes
Tato
Minhas mãos trilham tuas costas caboclas,
A rigidez dos teus músculos mulatos
Artefatos mutantes
Em pele deslizante.
Minhas palmas descansam em teu peito
Fugidias percorrem nichos secretos
Meu tato se esmera
Na anatomia de concreto.
Minhas mãos te sentem na pele suave
Veludo desnudo que me arrepia
Meu tato se acende na tua epiderme
Cremosa, reluzente e macia.
Minhas palmas adivinham tua boca
Polpa carnuda e molhada
Percorrem teus dentes alvos
E a língua orvalhada.
Minhas mãos enfeitam teu pescoço
A vida palpita na veia que lateja
Meu tato se apodera do teu ventre
Tenso, rijo e nervoso.
Palmeio cada pedaço de ti
Tateio cada parte do que és
Como se foras petisco guloso
Mestiço manhoso,
Sucumbido aos meus pés.
Carmen Bentes
Tema de Letícia
Pede-me versos Letícia
E tão formosa
Exige que os faça prontamente
Mas onde encontrar minha ditosa
A rima que me contente?
A musa é tão fugaz e caprichosa...
Por tantos mundos já trilhei
Mas tu...
Qual flor!
Que mal nasceste à beira da estrada
Aos beijos da manhã ainda orvalhada
Sorris a tudo, ao céu, à natureza
Supondo que essa vida tão desejada
Ora generosa, ora ingrata
Mas que sempre fere,
Amiúde maltrata
É um estendal de sonho e beleza
No fulgor dessa agonia
Na pálida estrela que fecha o dia
Ainda acudiu-me a poesia
E por adivinhar-te Letícia
Tiveste o nome da Alegria
És assim vestal ventura
Esplendor de formosura
Canto que encanta e seduz
Vida gerada e concebida
Que no revés de tantas vidas
Acabou por me dar luz
Carmen Bentes
Templários
Eu escondo um cálice sagrado
Guardo segredos ancestrais
Creio nas forças da terra
Expulso as hordas de bárbaros
Luto sobre bastiões sagrados
O que queres saber mais?
Eu tenho uma legião de guerreiros
E pavilhões altaneiros
A lâmina de têmpera invencível
As brumas me tornam invisível
A barca me leva e me traz
O que queres saber mais?
Eu festejo os solstícios
A passagem das estações
Afasto malefícios
Converto os pagãos
Conduzo os cegos
Batizo os animais
O que queres saber mais?
Não tentes desvendar
O mistério dos cavaleiros
Não tentes adivinhar
Nem procures crer
O templo está guardado
O pergaminho está lacrado
Nada mais podes saber.
Carmen Bentes
Último acalanto
A armadura que amparava meu peito
O estandarte que empunhava tremulante
A espada que balançava na bainha
Acabaram-se em pedaços.
Hoje estou desamparada,
Desarmada, desencantada
Estou em farrapos.
Nada há para me trazer consolo
Nada há para me trazer abrigo
Nada há para me trazer de volta
Nada repara tanta dor e tanto dolo.
Deixem-me, então, seguir sozinha
E me alimentar no azedume dessa estrada
Que não sei onde estão as trilhas,
Que não conheço os percalços
E como única certeza
Sei que não vai dar em nada.
Pois não existe repouso que me acalante
Porto que me segure
Brisa que me refresque
Ou mão que me levante.
Sigo para lugar algum, sigo assim mesmo
Aos tropeços, em chagas
Sem recomeço, coberta de pragas
Certa de que tudo foi a esmo.
Esperando que a paz brote do chão
Onde vou cair, rota, suja, asquerosa
Esperando ansiosa
Pela morte caprichosa
Que – enfim - me cobrirá piedosa
Com seu manto de mansidão.
Carmen Bentes
Vazio
Chuva piedosa pode molhar o mundo
Porque não tenho mais lágrimas
Se fui feliz, entristeço-me agora
A chuva traz uma longa solidão às coisas
E tudo ao meu redor
Parece tão vago e úmido, tão só...
A tarde goteja mansa, veemente
De repente me acode uma certa nostalgia
E me faz lembrar que a alegria
Tem data marcada:
Tempos cumpridos a alegria partirá.
Tão crente de ser feliz!
A chuva cai mansamente
Tem medo de embotar minhas rimas
E o som de um piano ao longe
Faz com que tudo pareça manchado por cinzas.
Nem mesmo gritos dementes
Permiti que meu coração pudesse dar
Deixei-o quedar-se ali, calado
Emudecido, alquebrado,
Malgrado tentasse fazê-lo gritar.
Com a face seca e a alma molhada
Meu pranto morreu antes mesmo de nascer
A felicidade que julgava conquistada
Dilui-se com o vento, debandou na enxurrada
E não me restou mais nada!
Carmen Bentes
Vida afora
Vida afora
Fora a vida
Eu não levo nada
Vida afora
Fora a vida
Vivo alienada
Vida afora
Fora a vida
Eu não sei de nada
Vida afora
Fora a vida
Vivo sobressaltada
Vida afora
Fora a vida
Eu não sou quem esperava
Mas procuro quem me leve
Ou dessa vida para fora
Ou para fora dessa vida
Eu procuro quem me carregue
Vida afora
O resto não me importa.
Carmen Bentes
Carmen Bentes - Nasci carioca, poetisa e escritora. Desde de os nove anos escrevo. Sou formada em Comunicação Social com especialização em Relações Públicas.Gosto da diferenciação entre poeta e poetisa, assim como cantor e cantora, músico e musicista. É o orgulho da missão de ser mulher. Refiro-me ao gênero feminino e não à escolha sexual, pois odeio preconceitos. Estou convicta de que qualquer forma de preconceito é sinal, inequívoco, de burrice.
Tenho trabalhos publicados na Antologia Delicatta (conto e poema). No projeto Delicatta fui vencedora na categoria poema livre com a obra “Peixe de Prata”. Em breve terei outro trabalho publicado na Antologia “As cartas que nunca enviei”, de título “O Arquiteto do Improvável” (prosa), coordenado pelo escritor Marcelo Puglia, para quem faço trabalhos de revisão em seus muitos projetos.
Escrevo sobre tudo. Muitas vezes sou ilusionista de quem me lê, outras tantas é minha história explícita nos meus versos. Para mim esta é a maior sedução: escrever usando o imaginário e a realidade, sem jamais saber quando será um ou outro que a inspiração me trará.
Penso que cada escritor ou poeta, cumpre um destino. O meu é rasgar minha alma sem medo de quaisquer julgamentos. Apenas a trago aos meus dedos e transcrevo-a. É como me liberto do meu casulo e vôo pela existência.
Outros links em que os amigos podem me ler: http://arte-final.blogspot.com www.mundomundano.com.br http://colunistas5carmen.blogspot.com/ http://orebate-martaperes.blogspot.com/2009/02/poeta-carmen-bentes.html



















































































